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Bets e lavagem de dinheiro: regras de PLD e operações de 2026
O que a Portaria SPA/MF 1.143 exige das bets, os números do 1º ano do mercado regulado e as operações Arena e Véu de Maia contra lavagem com apostas.
Apostas esportivas e cassinos online movimentam bilhões, aceitam pagamentos instantâneos e pagam prêmios que podem ser apresentados como renda lícita. Essas características fazem do setor um alvo natural para a lavagem de dinheiro. Desde janeiro de 2025, o Brasil tem um mercado regulado de apostas de quota fixa, com regras específicas de prevenção à lavagem de dinheiro (PLD). Os primeiros resultados e as operações policiais de 2026 mostram onde estão os riscos.
Por que as apostas atraem dinheiro sujo
Há três caminhos clássicos. No primeiro, o criminoso deposita dinheiro ilícito, faz apostas de baixo risco e saca o saldo como "prêmio". No segundo, o próprio operador é usado como fachada: a casa de apostas recebe recursos de origem criminosa e os mistura ao faturamento. No terceiro, estruturas no exterior simulam que a operação ocorre fora do país, justificando remessas internacionais. As investigações recentes no Brasil envolvem principalmente os dois últimos.
As regras de PLD para as bets
A Portaria SPA/MF nº 1.143, publicada em 11 de julho de 2024 pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, fixou as obrigações de PLD/FT para os operadores, com fiscalização a partir de 1º de janeiro de 2025. Segundo análise do Demarest, os principais pontos são:
- Conheça seu cliente: identificar, qualificar e classificar por risco apostadores, funcionários, parceiros e prestadores de serviço.
- Verificar instituições de pagamento parceiras, confirmando que são autorizadas pelo Banco Central.
- Comunicar ao Coaf apostas e operações com indícios de lavagem ou financiamento do terrorismo, detalhando origem e destino dos recursos e meio de pagamento.
- Declaração de não ocorrência à SPA quando não houver nada a comunicar no ano.
- Avaliação interna de risco anual, entregue à SPA até 1º de fevereiro do ano seguinte.
- Guarda de registros por, no mínimo, cinco anos.
- Política publicada no site do operador, aprovada pelos administradores e atualizada anualmente.
O descumprimento pode levar às sanções do artigo 12 da Lei 9.613/1998, a lei de lavagem de dinheiro. Em fevereiro de 2025, SPA e Coaf reuniram mais de 190 operadores para padronizar as comunicações de atividade suspeita, porque as primeiras chegavam em formatos muito diferentes, segundo a NetCPA.
O primeiro ano do mercado regulado
O balanço de 2025 publicado pela Convergência Digital dá uma ideia da escala:
| Indicador (2025) | Valor |
|---|---|
| Empresas autorizadas | 79 |
| Brasileiros que apostaram | 25,2 milhões |
| Receita bruta do setor | cerca de R$ 37 bilhões |
| Tributos federais pagos | cerca de R$ 9,95 bilhões |
| Sites ilegais bloqueados pela Anatel | mais de 25 mil |
| Processos abertos pela SPA | 132, envolvendo 133 casas |
| Comunicações de instituições financeiras sobre bets ilegais | 1.255, envolvendo 1.687 pessoas |
| Contas bancárias encerradas | 550 |
O dado das contas encerradas mostra que o sistema financeiro passou a ser a principal barreira contra as bets ilegais: sem conta para receber depósitos, o site clandestino perde a capacidade de operar.
As operações de 2026
Operação Arena
Em 13 de agosto de 2026, a Polícia Federal, com o MPF, a Receita Federal e a SPA, cumpriu 17 mandados de busca nos estados da Paraíba, Sergipe, São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. A Justiça autorizou o sequestro de valores estimados em até R$ 1,1 bilhão. Segundo a Agência Gov, o grupo se apresentava como sediado na Costa Rica e em Curaçao para justificar remessas ao exterior, sem atividade econômica compatível, e teria pago a outorga federal com recursos de origem ilícita. A investigação começou em 2022.
Na segunda fase, em 17 de setembro de 2026, a PF prendeu preventivamente um sócio da Pixbet, segundo o Portal de Prefeitura. A defesa não havia se manifestado até a publicação da reportagem, e os investigados não foram julgados.
Operação Véu de Maia
Em 6 de julho de 2026, a PF cumpriu nove mandados em Goiás, São Paulo e Rio Grande do Sul contra 87 empresas suspeitas de servir de fachada para movimentar recursos de operadores irregulares. A investigação partiu de informações da SPA e apura possível envio de recursos ao exterior por criptoativos (Finsiders).
O que muda para quem faz PLD
- Bancos e instituições de pagamento devem tratar transferências para sites não autorizados como sinal de alerta e conferir a lista oficial de operadores.
- Operadores autorizados precisam monitorar padrões como depósitos fracionados, saques logo após depósitos e contas de terceiros.
- Estruturas no exterior, intermediários de pagamento e uso de cripto são os pontos que mais aparecem nas investigações.
- Influenciadores e afiliados também estão no radar: em 2025 houve 412 processos contra influenciadores (Convergência Digital).
Para o apostador
Aposte apenas em sites com domínio ".bet.br" e autorizados pela SPA. Plataformas ilegais não oferecem garantia de pagamento, podem usar seus dados e sua conta para movimentar dinheiro de terceiros e expõem você a investigações. Se sentir perda de controle, a plataforma federal de autoexclusão permite bloquear o acesso às casas autorizadas.
Fonte
- Demarest – Apostas de quota fixa: novas diretrizes combatem lavagem de dinheiro (Portaria SPA/MF 1.143/2024)
- NetCPA – SPA e Coaf orientam empresas de apostas sobre comunicação de atividades suspeitas
- Convergência Digital – Anatel bloqueou 25 mil sites de bets ilegais em 2025
- Agência Gov – PF faz operação contra quadrilha que faz lavagem de dinheiro com bets (Operação Arena)
- Portal de Prefeitura – Operação Arena: PF prende sócio da Pixbet
- Finsiders Brasil – Apostas ilegais: PF investiga 87 empresas suspeitas de lavagem de dinheiro