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Golpe do Pix em números: por que o MED devolve só 8,9% do roubado
Dados do Banco Central mostram R$ 24,5 bi roubados via Pix desde 2022 e só 8,9% devolvidos. Entenda o MED 2.0 e veja como se proteger dos golpes.
O Pix virou o meio de pagamento preferido dos brasileiros e, com ele, o alvo preferido dos golpistas. Dados do Banco Central compilados pelo O POVO+ mostram que, entre janeiro de 2022 e abril de 2026, pelo menos R$ 24,52 bilhões foram roubados em golpes via Pix. Desse total, as instituições devolveram R$ 2,2 bilhões, ou 8,9%. Em outras palavras: a cada R$ 100 perdidos, voltaram R$ 8,90.
O mesmo levantamento aponta uma média de 271,5 mil fraudes confirmadas por mês desde a criação do Pix. Os números ajudam a entender por que o Banco Central reformulou o Mecanismo Especial de Devolução (MED) e por que a devolução continua baixa.
O tamanho do problema
Várias fontes medem o golpe do Pix de ângulos diferentes, e os números não devem ser somados entre si.
- Banco Central (via O POVO+): R$ 24,52 bilhões roubados de jan/2022 a abr/2026; R$ 2,2 bilhões devolvidos.
- Fórum Brasileiro de Segurança Pública (via Rádio Senado): cerca de 24 milhões de pessoas foram vítimas de golpe via Pix entre julho de 2024 e junho de 2025, com perdas estimadas em R$ 29 bilhões.
- Febraban (via Convergência Digital): R$ 2,7 bilhões em perdas com fraude via Pix em dois anos, com alta de 43% no volume fraudado em relação a 2023.
No sistema bancário como um todo, a Febraban estima que as perdas com fraudes em canais eletrônicos e cartões chegaram a R$ 10,1 bilhões em 2024, contra R$ 8,6 bilhões em 2023, alta de 17%.
Os golpes que mais crescem
No primeiro semestre de 2025, segundo a Febraban, o golpe mais relatado por clientes bancários foi o da falsa venda, com 174 mil casos (+314%). Em seguida vieram a falsa central ou falso funcionário, com 139 mil (+195,7%), e o golpe do WhatsApp, com 73 mil, o único em queda (−9,9%).
O padrão é claro: o golpista não precisa invadir sistemas. Ele convence a vítima a fazer a transferência ela mesma.
Por que o MED devolve pouco
O MED é o mecanismo que permite ao cliente contestar um Pix feito em golpe e pedir a devolução. Os dados mostram que o canal é muito usado, mas devolve uma fração pequena do que é contestado.
| Indicador do MED | Valor | Período |
|---|---|---|
| Pedidos de devolução | ~5 milhões, 31% aceitos | até jun/2025 |
| Valor devolvido / valor contestado | R$ 459 mi de R$ 6,98 bi | até jun/2025 |
| Contestações por mês | média de 1,3 milhão | jan–ago/2025 |
| Contestações após o botão de contestação | 3,5 mi (out) e 3,4 mi (nov) | 2025 |
| Valor devolvido por mês | R$ 56 mi (média jan–ago); R$ 70,3 mi (out); R$ 62,8 mi (nov) | 2025 |
| Parcela devolvida do contestado | 7% a 9% | 2025 |
Quando o Banco Central facilitou a contestação, com um botão no aplicativo, o número de pedidos quase triplicou. O valor devolvido, porém, subiu bem menos. A devolução depende de haver saldo na conta que recebeu o dinheiro, e o dinheiro de golpe costuma sair dela em minutos.
Há ainda um obstáculo estrutural. Nas chamadas contas-bolsão, uma fintech mantém em um banco uma conta em nome próprio que mistura recursos de vários clientes. O banco enxerga apenas a fintech, o que dificulta rastrear origem e destino do dinheiro e cumprir bloqueios judiciais, como explica a IstoÉ Dinheiro.
O que muda com o MED 2.0
O MED 2.0 é obrigatório desde 2 de fevereiro de 2026. A principal mudança é rastrear o "caminho do dinheiro" por várias contas, e não apenas na primeira conta que recebeu o Pix. A devolução pode ocorrer em até 11 dias após a contestação.
Pela Resolução BCB 546, de 22/01/2026, o Banco Central dispensou processo sancionador por descumprimento entre 2 de fevereiro e 10 de maio de 2026, uma espécie de período de adaptação para as instituições, segundo o Finsiders.
Outras medidas recentes
- BC Protege+: lançado em dezembro de 2025, permite que o cidadão bloqueie a abertura de contas em seu nome. Em um mês, barrou 111 mil aberturas suspeitas.
- Res. CMN 5.274 e Res. BCB 538 (dez/2025): exigem das instituições, entre outros controles, autenticação multifator no acesso administrativo ao Pix, isolamento desses ambientes e teste de invasão anual por empresa independente. O prazo de adequação foi 1º de março de 2026.
Os efeitos do MED 2.0 sobre a taxa de devolução ainda não aparecem em séries públicas consolidadas. O indicador a acompanhar é simples: quanto do valor contestado volta para a vítima.
Como se proteger
- Banco não liga pedindo senha, código ou transferência de teste. Desligue e ligue você para o número oficial do banco.
- Desconfie de preço muito abaixo do mercado em marketplaces e redes sociais. A falsa venda é o golpe que mais cresce.
- Confirme por outro canal pedidos de dinheiro de parentes e amigos, mesmo com foto conhecida.
- Use os limites do Pix no aplicativo do banco e cadastre apenas aparelhos confiáveis.
- Ative o BC Protege+ para impedir a abertura de contas em seu nome.
- Caiu no golpe? Conteste no aplicativo do banco imediatamente, pelo MED, e registre boletim de ocorrência. Quanto mais rápido, maior a chance de haver saldo para bloquear.
Fonte
- O POVO+ / Banco Central: golpes no Pix
- Economic News Brasil / Banco Central: contestações no MED
- Jovem Pan / Banco Central: pedidos e devoluções do MED
- Finsiders: MED 2.0 obrigatório e BC Protege+
- Convergência Digital / Febraban: fraudes no Pix
- Jornal de Brasília / Febraban: perdas dos bancos com fraude
- Diario de Pernambuco / Febraban: golpes mais relatados no 1º semestre de 2025
- Rádio Senado / FBSP: vítimas de golpes pelo Pix
- Trench Rossi: Res. CMN 5.274 e Res. BCB 538
- IstoÉ Dinheiro: o que são contas-bolsão