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Fraude no INSS: fatos e números dos descontos indevidos
R$ 6,3 bilhões desviados, 97,6% sem autorização e mais de R$ 3 bilhões devolvidos: os números verificados da fraude no INSS e como contestar.
Em abril de 2025, uma operação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU) revelou um dos maiores esquemas de fraude contra aposentados da história do país: entidades associativas descontavam mensalidades diretamente dos benefícios do INSS sem autorização dos segurados. Um ano e meio depois, o caso acumula bilhões em ressarcimentos, uma CPMI encerrada sem relatório aprovado e investigações ainda em curso. Abaixo, os fatos e números verificados.
Como funcionava o esquema
O INSS mantinha Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) que permitiam a associações e sindicatos descontar mensalidades em folha. Segundo a PF, muitas dessas entidades existiam apenas no papel. Os valores eram pequenos, o que fazia muitas vítimas não perceberem os descontos, e as cobranças se referiam a serviços que não eram prestados, como suporte jurídico, de acordo com a IstoÉ Dinheiro. A polícia também apura se dados de aposentados foram obtidos com servidores do INSS mediante propina.
O que a auditoria da CGU encontrou
- 29 entidades auditadas, sem estrutura operacional para prestar os serviços prometidos.
- 70% não entregaram a documentação exigida.
- Entre 1,3 mil beneficiários entrevistados, 97,6% não haviam autorizado o desconto.
- Entre janeiro de 2023 e maio de 2024, o INSS recebeu 1 milhão de reclamações sobre descontos indevidos.
A Operação Sem Desconto
Deflagrada em 23 de abril de 2025, a operação mobilizou cerca de 700 agentes da PF e 80 servidores da CGU, com 211 mandados de busca e apreensão, seis mandados de prisão temporária e ordens de sequestro de bens acima de R$ 1 bilhão, segundo a IstoÉ Dinheiro. Os investigadores estimam que associações se apropriaram de R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024, a maior parte retida indevidamente.
No dia seguinte, o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, foi afastado, e o governo suspendeu todos os acordos de cooperação com as entidades, bloqueando os repasses, conforme o O POVO.
Os números do caso
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Prejuízo estimado (2019–2024) | R$ 6,3 bilhões |
| Mandados de busca na 1ª fase | 211 |
| Pedidos de contestação abertos (até dez/2025) | 6.362.898 |
| Valor ressarcido (até 26/12/2025) | R$ 2,82 bilhões |
| Valor ressarcido (abril de 2026) | mais de R$ 3 bilhões |
| Beneficiários afetados | 9,5 milhões |
| Entidades questionadas | 44 |
Fontes: IstoÉ Dinheiro, Agência Brasil e Viva, com dados do INSS, PF e CGU.
Como funciona o ressarcimento
O governo criou um acordo de ressarcimento administrativo, cuja adesão foi condicionada à homologação pelo Supremo Tribunal Federal. Pelo plano operacional do INSS, o segurado contesta o desconto; a entidade tem 15 dias úteis para devolver o dinheiro ou comprovar a autorização. Se não fizer nenhum dos dois, a União paga o valor corrigido pelo IPCA, diretamente na conta onde o benefício é recebido. A adesão encerra eventual ação judicial sobre o mesmo valor.
Até 26 de dezembro de 2025, o INSS havia devolvido R$ 2,82 bilhões, atendendo 4,1 milhões de solicitações, segundo balanço divulgado pela Agência Brasil. Em 131,5 mil pedidos, as entidades comprovaram a autorização. O acordo cobre descontos feitos entre março de 2020 e março de 2025.
Em abril de 2026, o total devolvido passava de R$ 3 bilhões. Dos 9,5 milhões de beneficiários afetados, cerca de 6,4 milhões confirmaram descontos indevidos nos canais oficiais, segundo o Viva. Os canais mais usados foram o Meu INSS (53,8%) e os Correios (36%).
A CPMI e o desfecho político
Instalada em 20 de agosto de 2025, a CPMI do INSS terminou na madrugada de 28 de março de 2026 sem relatório aprovado. O parecer do relator Alfredo Gaspar (PL-AL), de 4.340 páginas e com pedido de indiciamento de 216 pessoas, foi rejeitado por 19 votos a 12, e um relatório alternativo da base governista não chegou a ser votado, segundo o Movimento Econômico. As investigações da PF e do Ministério Público Federal seguem de forma independente.
Quem está na mira
Entre as entidades citadas está a Conafer, cujo presidente é suspeito de ser o mentor da falsificação de assinaturas, segundo o Viva. A lista de investigados mencionada pela publicação inclui ainda empresários, ex-dirigentes do INSS e um senador. Nenhum deles foi condenado até a data de publicação deste texto, e todos têm direito à presunção de inocência.
O que o caso ensina
A fraude explorou um mecanismo legal (o desconto em folha), a baixa fiscalização de convênios e a dificuldade de idosos acompanharem extratos. Também mostra o risco do uso indevido de dados pessoais de segurados, um tema que toca diretamente a LGPD.
O que fazer
- Confira o extrato do benefício no Meu INSS, no serviço "Consultar Descontos de Entidades Associativas".
- Conteste clicando em "Não autorizei o desconto", pela Central 135 ou numa agência dos Correios. Verifique no INSS se ainda há prazo aberto.
- Desconfie de intermediários que cobram para "recuperar" o dinheiro: o processo oficial é gratuito.
- Ajude familiares idosos a acessar o aplicativo e revisar descontos periodicamente.
Fonte
- IstoÉ Dinheiro – Entenda em 6 pontos o esquema de fraude no INSS
- O POVO – Governo suspende descontos e diz que valores serão restituídos (24/04/2025)
- INSS – Plano operacional do acordo de ressarcimento
- Diario de Pernambuco / Agência Brasil – Governo devolve R$ 2,8 bilhões a aposentados (30/12/2025)
- Viva – Fraude no INSS: quase metade do dinheiro é devolvido (24/04/2026)
- Movimento Econômico – CPMI do INSS rejeita 216 indiciamentos (28/03/2026)