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Passkeys, MFA e o fim das senhas: o que barra a tomada de conta
97% dos ataques de identidade usam senhas. Saiba quais MFAs resistem a phishing, o que mostram os dados das passkeys e um checklist contra tomada de conta.
A senha continua sendo o elo mais fraco da segurança digital. Segundo o relatório Microsoft Digital Defense Report 2025, os ataques de identidade cresceram 32% no primeiro semestre de 2025, e 97% deles foram de password spray ou força bruta (Expert Insights). No DBIR 2025 da Verizon, credenciais roubadas foram o principal vetor de violação, com 22% dos casos (Help Net Security).
A tomada de conta (account takeover) é a porta de entrada de muitos outros crimes: fraude bancária, golpes com o perfil da vítima em redes sociais, comprometimento de e-mail corporativo e invasões de rede que terminam em ransomware. Uma única senha reaproveitada pode abrir todas essas portas.
A boa notícia é que existe defesa eficaz. A má é que nem todo segundo fator protege igual.
MFA funciona, mas há MFA e MFA
A Microsoft afirma que ferramentas modernas de autenticação multifator bloqueiam mais de 99% das tentativas de acesso não autorizado e chama o MFA de a medida de segurança mais importante que uma organização pode adotar. Mas os criminosos aprenderam a contornar as versões mais simples.
A agência americana CISA publicou em outubro de 2022 uma hierarquia que segue como referência, resumida pelo escritório Bricker Graydon:
| Método | Avaliação da CISA | Principais ameaças |
|---|---|---|
| FIDO/WebAuthn (passkeys, chaves físicas) e PKI (smart cards) | Resistente a phishing, recomendado | Baixa exposição |
| App com código ou notificação push | Vulnerável | Phishing em tempo real, "fadiga de MFA" (push bombing) |
| SMS, voz ou e-mail | Último recurso | SIM swap, falhas do protocolo SS7, phishing |
Para quem ainda usa push, a CISA recomenda ativar a correspondência de números (o usuário digita no app o número exibido na tela de login), o que reduz a aprovação por cansaço. E sugere migrar por fases, começando por e-mail, servidores de arquivos, acesso remoto e usuários de alto valor, como administradores, advogados e RH.
Passkeys: a senha que não pode ser roubada
As passkeys são credenciais baseadas no padrão FIDO. Em vez de uma senha que o usuário digita e que pode ser capturada num site falso, o dispositivo guarda uma chave criptográfica vinculada ao endereço legítimo do serviço. Sem o site certo, não há o que entregar ao golpista.
O primeiro Passkey Index da FIDO Alliance, lançado em 14 de outubro de 2025 com dados de empresas como Amazon, Google, Microsoft, PayPal, Target e TikTok, mostrou (FIDO Alliance):
- 93% das contas eram elegíveis a passkeys e 36% já tinham uma cadastrada;
- 26% dos logins usavam passkey;
- taxa de sucesso de login de 93%, contra 63% de outros métodos;
- tempo médio de 8,5 segundos, contra 31,2 segundos;
- queda de 81% nos chamados de suporte ligados a login.
A edição de 2026, publicada em 15 de outubro, indica que 36% dos logins bem-sucedidos já usam passkey, acima dos 26% de 2025, com taxa de sucesso de 93% contra 78% do MFA tradicional (FIDO Alliance). Todos os participantes que medem phishing relataram menos ataques bem-sucedidos após a adoção, e todos os que informaram custos registraram economia com SMS.
O que diz o NIST sobre senhas
Na prática, a adoção cresce mais rápido no uso do que no cadastro: o índice de 2026 registra que o número de contas com passkey avançou mais devagar que o de logins feitos com ela, sinal de que quem cadastra passa a usar com frequência.
Sincronizada ou presa ao dispositivo?
Há dois tipos de passkey. As sincronizáveis ficam guardadas no gerenciador do sistema (como as contas Apple, Google ou Microsoft) e passam de um aparelho para outro, o que facilita a vida do usuário comum. As vinculadas a um dispositivo, como chaves físicas de segurança, não saem dele e são preferidas para administradores e contas de altíssimo valor. A escolha depende do risco: para a maioria das pessoas, qualquer passkey já é muito superior a senha com SMS.
A versão final da diretriz NIST SP 800-63B, analisada pela empresa Intercede, consolidou mudanças que contrariam práticas antigas:
- nada de troca periódica obrigatória; a senha só deve mudar se houver indício de comprometimento;
- regras de composição (maiúscula, número, símbolo) são desnecessárias e podem piorar a segurança;
- usuários devem poder criar frases-senha de pelo menos 15 caracteres;
- senhas devem ser checadas contra listas de credenciais vazadas;
- autenticadores sincronizáveis, como passkeys, passam a ter uso esclarecido nos níveis AAL2 e AAL3.
Onde ainda há brechas
Passkeys não resolvem tudo. Ataques que roubam tokens de sessão ou credenciais de máquina contornam o login. O worm Shai-Hulud, que atingiu o npm em 2025, buscava justamente tokens do GitHub e chaves de nuvem; a CISA recomendou trocar credenciais de desenvolvedores e exigir MFA resistente a phishing nessas contas (CISA). Processos de recuperação de conta por SMS ou atendimento telefônico também podem reabrir a porta que a passkey fechou.
Checklist contra tomada de conta
- Ative passkeys ou chaves FIDO em e-mail, banco, nuvem e redes sociais.
- Nas empresas, comece por administradores, acesso remoto e equipes financeiras.
- Se usar push, ligue a correspondência de números.
- Abandone SMS como segundo fator onde houver alternativa.
- Endureça a recuperação de conta: ela não pode ser mais fraca que o login.
- Monitore e expire tokens de sessão e de API.
- Bloqueie senhas presentes em listas de vazamento.
Fonte
- Expert Insights – 97% of identity attacks involve passwords (Microsoft Digital Defense Report 2025)
- Bricker Graydon – CISA guidance discourages app-based, SMS and voice MFA
- FIDO Alliance – Passkey Index 2025
- FIDO Alliance – Passkey Index 2026
- Intercede – From draft to final: NIST's latest password guidance
- Help Net Security – Verizon 2025 DBIR
- CISA – Widespread supply chain compromise impacting npm ecosystem